Fibrina Rica em Plaquetas e Leucócitos (L-PRF)

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A excelência no processo de cicatrização dos tecidos moles e duros tem sido o objetivo de diversos estudos relacionados a engenharia tecidual. Dentro desse contexto, o uso dos agregados plaquetários na Odontologia tem sido estudado devido a sua capacidade de promover angiogênese, hemostasia e controle local da inflamação, principalmente em tecidos moles. O objetivo principal da obtenção dos agregados é conseguir em uma amostra de sangue todos os elementos que possam ser utilizados como um potencial regenerativo, tais como plaquetas, leucócitos e citocinas. Cada método e protocolo de centrifugação pode produzir produtos com assinaturas biológicas e terminologias diferentes (AGRAWAL, 2017).

A classificação dos agregados proposta por Dohan et al. (2009), considerou o teor de leucócitos e plaquetas e por meio de abreviações de acordo com a sua composição, denominou a PRF de Choukroun como Fibrina rica em Plaquetas e Leucócitos (L-PRF). Oliveira et al. (2018) sugeriram uma denominação autoexplicativa ao produto biológico sem limitação ao método específico. Ponderaram a composição e aplicação terapêutica com uma explicação didática deste agregado sanguíneo, nominando-o como: Fibrina Leucoplaquetária Autóloga.

A técnica para a obtenção do L-PRF é considerada simples, segura, de baixo custo e sem adição de quaisquer outras substâncias e foi inicialmente relatada na França, por Choukroun et al. (2001). Por se tratar de um biomaterial natural e 100% autólogo, não oferece riscos de transmissão de doenças ou rejeição por parte do organismo receptor. O protocolo original consiste na coleta de sangue autólogo por punção intravenosa, sem adição de qualquer anticoagulante, em tubos revestidos de vidro de 10 ml que são imediatamente centrifugados a 3.000 rotações por minuto (RPM) durante 10 minutos (DOHAN et al., 2006a) ou a 2.700 rotações por minuto (RPM) por 12 minutos (DOHAN et al., 2018).

O L-PRF é constituído principalmente por uma matriz densa de fibrina, plaquetas, leucócitos, citocinas e fatores de crescimento. Sendo considerada a segunda geração dos agregados plaquetários tem como função acelerar e melhorar a qualidade da reparação tecidual e modulação da resposta inflamatória, torna-se uma promissora alternativa para procedimentos regenerativos (DOHAN et al., 2018).

A morfologia tridimensional com junções equiláteras da rede de fibrina do L-PRF, permite o aprisionamento intrínseco de plaquetas e citocinas que são liberadas gradualmente durante o processo de cicatrização por um período de sete a 14 dias. Além disso, funciona como um arcabouço para migração, proliferação e diferenciação celular e entrega de fatores de crescimento. Os fatores de crescimento contribuem para a formação óssea e no reparo e remodelação tecidual, são essenciais na regulação da migração, proliferação e sobrevivência de células mesenquimais, aumentam a vascularização tissular, estimulam a quimeotaxia e a angiogênese endotelial. A presença dos leucócitos proporciona uma característica imunológica, com capacidade de estimular os mecanismos de defesa e regulação inflamatória (DOHAN et al., 2006a, 2006b, 2006c, 2018).

Devido a ausência de anticoagulante, a velocidade de coleta do sangue e a transferência para a centrífuga é de extrema importância, uma vez que em minutos ocorre a ativação das plaquetas e a liberação da cascata de coagulação com o contato do sangue no tubo de coleta.  É favorável que o procedimento de venopunção seja realizado por um profissional experiente para oferecer uma maior segurança do paciente e do cirurgião-dentista, além disso, proporciona uma maior garantia de que a coleta seja realizada em tempo adequado.

Como resultado do sangue centrifugado, o tubo é divido em 3 porções. Sendo a porção superior do tubo preenchida pela concentração de fibrinogênio, correspondendo ao soro sanguíneo, na porção central encontra-se o coágulo de fibrina e a porção inferior é representada pelos glóbulos vermelhos (DOHAN et al., 2006a, 2009, 2010, 2018).

De acordo com a descrição de Dohan et al. (2010), o coágulo pode ser dividido em duas partes principais, uma porção amarela de fibrina correspondendo ao corpo principal e outra porção vermelha localizada no final do coágulo com grande quantidade de hemácias. Entre essas duas porções encontra-se uma área esbranquiçada chamada de “buffy coat”. Sendo o maior número de plaquetas e leucócitos localizados no início do coágulo amarelo, logo após o coágulo vermelho e a medida em que se direciona para o final do coágulo o ocorre uma menor concentração de plaquetas e leucócitos. Assim, torna-se importante o conhecimento do cirurgião-dentista sobre a arquitetura de fibrina para utilizá-la de forma correta e aproveitar todo o seu potencial biológico

Algumas das principais indicações descritas na literatura estão os procedimentos de preservação de rebordo alveolar (ANWANDTER et al., 2016; CANELLAS et al., 2018), reparo periodontal e de tecido mole (MIRON et al., 2017a; 2017b), cicatrização de tecidos duros e moles e redução do desconforto pós-operatório (CASTRO et al., 2017a). Possui efeitos benéficos na regeneração óssea (CHOUKROUN et al., 2006a), melhora a reconstrução da fenda alveolar em paciente fissurado, reduz a reabsorção óssea marginal do implante (CASTRO et al., 2017b) e diminui o tempo de cicatrização em cirurgias de aumento do seio maxilar (CHOUKROUN et al., 2006b; CANELLAS et al., 2018). Estes estudos evidenciam que esse biomaterial pode ser muito promissor e utilizado em algumas situações da prática cirúrgica favorecendo o processo de cicatrização de tecidos moles e duros, beneficiando o paciente ao proporcionar um maior conforto e uma melhor previsibilidade do tratamento.

A utilização da L-PRF ou fibrina leucoplaquetária autóloga, pelos cirurgiões-dentistas, seguem as determinações da resolução 158/2015 do Conselho Federal de Odontologia (CFO), que regulamenta o uso dos agregados plaquetários autólogos não transfusionais e autoriza a venopunção para finalidade exclusiva da Odontologia, contudo é necessário competência técnica para a realização do procedimento de venopunção, que pode ser comprovada por meio de diplomas, declarações, certificados e congênere (CFO, 2015).

Pode-se concluir que a L-PRF é um coágulo natural de sangue autólogo potencializado, constituído de uma arquitetura de fibrina forte, elástica e flexível formando arcabouço tridimensional favorável a migração e adesão celular, dotada de um concentrado de citocinas leucoplaquetárias de liberação lenta com características imunológicas e capacidade de estimular os mecanismos de defesa, regulação inflamatória e hemostasia local. Devido ao baixo custo, facilidade de obtenção e sem nenhuma contra-indicação é uma opção confiável de tratamento para cirurgias orais como coadjuvante no reparo e regeneração tecidual.

REFERÊNCIAS

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2019-10-17T22:35:15+00:00 Cirurgia, Implantodontia|0 Comments

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